Intro logo O Cerrado é um entrelaçado de elos, profundamente unidos, uma
trama a se revelar. É mais que galhos tortos e cachoeiras,
são Cerrados, algo pra você mergulhar.

Intro A dualidade do Cerrado Cerca de metade da área original do Cerrado foi desmatada e mais de 96% desse desmatamento no bioma foi provocado pela agropecuária. Ao mesmo tempo, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo, gerando diversos serviços essenciais à vida. Essa é uma dualidade intensa sobre o mesmo território.

A dualidade do Cerrado A própria agropecuária depende dos serviços gerados pelo Cerrado. Sem o cerrado de pé, os impactos são significativos: a chuva tende a ficar irregular e provocar quebras de safras, o que gera um prejuízo de dezenas de milhões de reais por ano; a polinização dos cultivos fica gravemente prejudicada, gerando insegurança alimentar, pois 60% das espécies cultivadas dependem de polinização - entre elas a soja, o café, a laranja e o feijão; já o desequilíbrio causado pelo desmatamento provoca o contato entre espécies silvestres e domesticadas, possibilitando a transmissão de doenças, entre tantos outros impactos. A dualidade do Cerrado Invariavelmente, o elo entre o sistema produtivo agropecuário e o cerrado de pé não recebe a devida atenção, mas é intrincado e deve alertar a todos a fim de promover a reflexão e a busca por interações mais equilibradas.

Cerrado O Cerrado é um mosaico de vegetações, campos, savanas e florestas que abrigam e sustentam mutuamente mais de 12 mil espécies de plantas nativas e cerca de 320 mil espécies de fauna distribuídas em 35 grupos (filos). Grande parte desta fauna e flora são de espécies que ocorrem somente neste bioma (endêmicas) - Uma riqueza que equivale a 5% da biodiversidade do planeta.

O Cerrado Essa diversidade tem enorme valor e papel fundamental na vida de todos. O Cerrado é fonte de moléculas de onde se extraem diversos fármacos guardados pelo conhecimento tradicional e cada vez mais estudado por cientistas. O Cerrado Essa farmácia viva nos oferece inúmeras opções que vão desde: a cervejinha do campo (Arrabidaea brachypoda) para tratar lesões de Leishmaniose, a secreção da pele da perereca Phyllomedusa oreades para o tratamento de Chagas, o Barbatimão (Stryphnodendron adstringens) para cicatrização e infecções, o Pacari (Lafoensia pacari A.St.-Hil.) para gastrite, úlcera e feridas na pele - entre uma infinidades de outros usos populares. O Cerrado Os frutos do Cerrado cativam nosso paladar há gerações, criando uma relação identitária riquíssima. Certamente o alimento símbolo do Cerrado é o Pequi (Caryocar brasiliense), mas ele está também acompanhado de muitos outros, entre eles, se destacam: a castanha do Baru (Dipteryx alata), o palmito de Gueroba (Syagrus oleracea), os cajus nativos do Cerrado (Anacardium nanum e Anacardium humile), o Buriti (Mauritia flexuosa), o Jatobá do Cerrado (Hymenaea stigonocarpa), o Maracujá do Mato (Passiflora cincinnata), a Cagaita (Eugenia dysenterica), a Mama-cadela (Brosimum gaudichaudii), o Araticum (Annona crassiflora) e mais uma centena de outros frutos. O Cerrado Além de fármacos e alimentos, nosso bioma mantém sistemas complexos de suporte à vida, entre eles o ciclo hidrológico. As árvores do Cerrado costumam ter raízes muito longas que permitem a captação de água de solos profundos, jogando água na atmosfera e, assim, mantendo a umidade do ar (evapotranspiração). O Cerrado Essas mesmas raízes deixam o solo mais poroso, facilitando a infiltração da água da chuva no solo, o que por sua vez fará com que este libere água aos poucos, o que mantém os rios nos períodos secos. Portanto, manter o cerrado de pé é preservar água para todos.

Cerrado Protegido Dentre as diferentes Áreas Protegidas brasileiras temos as Unidades de Conservação (UC), que ocupam 8,5% do Cerrado. Entretanto, se consideramos somente as UCs que são cobertas por vegetação nativa essa porcentagem cai para apenas 6,5% do Cerrado de pé protegido. Se focarmos apenas nas áreas de Proteção Integral, que possuem maior poder de bloquear o desmatamento, o Cerrado teria apenas 3,2% de sua área protegida. As Terras Indígenas têm um papel importante nessa proteção, protegendo cerca de 4% do bioma. No entanto, ainda é muito pouco. Tendo em vista que cerca de 80% do Cerrado está sobre propriedades rurais, é imprescindível engajar esses proprietários em ações de proteção do Bioma.

Cerrado Protegido O Instituto Cerrados por meio de diferentes projetos têm criado essas reservas junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com a parceria do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, sigla em Inglês), Nature and Culture International (NCI), Funatura, Embaixada da França e parceiros locais como a Associação do Córrego da Barriguda e Cabeceira do Rio das Almas.

Hoje o Cerrado tem mais de 255 RPPNs, somando mais de 180 mil hectares - isso equivale a 21% das RPPNs do país. Porém a importância das RPPNs do Cerrado não se mede somente pela sua abrangência, mas também pela singularidade das áreas que protegem. O envolvimento dos proprietários rurais no processo de criação permite que sejam protegidos fragmentos tanto próximos de grandes Parques, como em meio a áreas intensamente ocupadas, servindo de refúgio para fauna e protegendo ecossistemas sensíveis.

As RPPN são espaços para conservação, pesquisa, educação e turismo - uma forma sustentável de se manter o Cerrado de pé, interagindo com ele. Essas Unidades de Conservação têm especial potencial para proteger fragmentos de Cerrado com belezas cênicas, que proporcionam o contato de visitantes e pesquisadores, como é o caso de muitas das reservas apresentadas neste espaço, e que somadas ampliam seus respectivos potenciais de proteção Na região de Pirenópolis, mais especificamente no Vale do Barriguda, criamos dez RPPNs que, somadas às outras duas que já existiam, formam o mosaico mais denso de RPPN do Brasil, outras duas RPPN estão em fase final de criação. Os últimos grandes remanescentes de Cerrado em Goiás se concentram no norte do Estado, na região da Chapada dos Veadeiros. A principal Unidade de Conservação da região é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros - com seus 240 mil hectares de paisagens e diversidade exuberante. Além do parque, há a Área de Proteção Ambiental do Pouso Alto que circunda o parque e outras unidades menores como as RPPN apresentadas aqui.

O Serrado: A porção desmatada do
Cerrado.

Diferentes aspectos impulsionaram a ocupação agropecuária do bioma. Entre eles se destacam os vastos planaltos, o clima bem demarcado e a mão de obra barata disponível, juntamente com os aperfeiçoamentos técnicos nos mais diferentes aspectos de diferentes cultivos. Isso fez com que 46% do Cerrado fosse “Serrado”, desmatado, já que 96% das áreas ocupadas do bioma são para uso agropecuário. Hoje 42% da soja e 44% da carne bovina exportada pelo Brasil vêm deste bioma - essa exportação gera um elo de consumo com o resto do mundo.

O Serrado Em 2018 foram exportadas do Cerrado mais de 47 milhões de toneladas de soja. Desses, 24 milhões foram para China, 9,8 milhões ficaram no Brasil, 4,8 milhões para união europeia, sendo 652 mil toneladas para a França.Em 2017 foram exportadas, no total, 926 mil toneladas de carne bovina do Cerrado sendo o principal destino também a China (continental e Hong Kong) com 360 mil toneladas importadas, seguida do Iran (110 mil toneladas), da Rússia (100 mil toneladas) e da União Europeia (70 mil toneladas). O Serrado A produção de commodities agropecuárias deixa marcas claras no Cerrado, já que esta atividade é a principal ocupante de área e consumidora de água no país (com 68% para agricultura e 10,8% para pecuária), mas não devemos perder de vista o papel do consumo. O Serrado O consumo nacional e internacional de carne e outros alimentos demanda grandes áreas e é um forte elo entre o cidadão comum e o desmatamento do bioma - hoje 24% do Cerrado está ocupado por pastagens. O alimento que mais demanda terra para sua produção (m²/ano) é a carne bovina, em torno de 160 m²/ano para se produzir 100g de proteína, enquanto que peixes (de criação) e amendoins demandam em torno de 80 m²/ano para produzir a mesma quantidade de proteína. Repensar a dieta é, portanto, uma forma efetiva de proteger o bioma.

A despeito de algumas exceções, os líderes dos países estão cada vez mais envolvidos em encontrar meios de conter as consequências mais severas das mudanças climáticas. O acordo de Paris, aprovado em 2016 após a COP 21, é uma prova disso. Clima

O Clima O esforço central está em conter o aumento da temperatura a um aumento máximo de 1,5°C e isso envolve um grande esforço adaptativo para que países como Brasil reduzam sua vulnerabilidade e suas emissões de gases do efeito estufa até 2025. Entre os compromissos brasileiros no acordo, estão: reduzir em 37% as emissões de gases do efeito estufa, atingir a meta de desmatamento ilegal zero na Amazônia até 2030, recuperar 15 milhões de hectares de áreas de pastagens degradadas e restaurar/reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Acordos como esses refletem normativas nacionais, com políticas mais específicas. Como é o caso da Política Nacional sobre Mudanças do Clima, que entre outras políticas, têm como meta a redução de 40% dos índices anuais de desmatamento do Cerrado em relação à média verificada entre os anos de 1999 a 2008. O Clima No caso brasileiro a principal fonte de emissões é o desmatamento de vegetação nativa (mudança do uso do solo). Em especial, o desmatamento do Cerrado e da Amazônia, que somam 44% (845 MT CO2e) do total de gás carbônico emitido pelo Brasil em 2018. Isso faz da conservação do Cerrado um elemento primordial para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas no Brasil, já que o desmatamento do bioma emite cerca 11% (248 MT CO2e) do total nacional - mais que o dobro que o país emitiu pelas industriais em 2016. O Clima O Brasil corre sérios riscos de não cumprir as metas em especial por não desenvolver e aplicar políticas públicas adequadas, no caso do Cerrado, o desmatamento anual tem ficado em torno dos 6.5 mil km², e a recuperação das áreas degradadas ainda se mostra tímida.

Áreas
degradadas
do Cerrado
Apenas conter o desmatamento no Cerrado não é suficiente. Como já foram desmatados mais de 46% do bioma, e cerca de 36 milhões de hectares de pastagens estão degradadas, é necessário um grande esforço de restauração. As áreas degradadas do bioma poderiam ser restauradas tanto para restabelecer o habitat de espécies nativas quanto para um uso florestal e agropecuário mais eficiente - integrando finalidade produtiva com conservação de biodiversidade.

Áreas degradadas Diferentes técnicas podem ser utilizadas para restaurar áreas degradadas no Cerrado, entre elas: semeadura direta, plantio de mudas, condução da regeneração natural e sistemas agroflorestais. Cada uma com seus potenciais e suas limitações, que variam a depender das características da área e dos objetivos que se pretende alcançar com as ações de restauração. A escolha da técnica a ser utilizada em cada situação é crucial para que os objetivos sejam atingidos e os benefícios da restauração sejam maximizados. Areas degradadas Infelizmente, há inúmeros exemplos em que isso não acontece da melhor forma. Já existem orientações para escolher a técnica de acordo com as característica da área (ver https://www.webambiente.gov.br/), mas acreditamos que é necessário detalhar as potencialidades de cada uma das técnicas, levando em conta a particularidade da situação. Áreas degradadas Essa informação sobre quais objetivos cada técnica melhor atende em cada situação precisa ser adequadamente sistematizada e amplamente divulgada de forma simples e direta. Apenas dessa forma, teremos uma restauração adequada dos diferentes ecossistemas do Cerrado.

Sociobiodiversidade Os povos e as comunidades tradicionais e outras populações do campo habitantes do Cerrado contribuem com a conservação do bioma porque vivem uma relação de pertencimento com seu território: proteger o Cerrado é defender sua identidade e seus modos de vida. O conhecimento popular sobre a biodiversidade do Cerrado, posto em prática no dia a dia das comunidades, é um dos motivos do Cerrado ainda estar de pé nesses locais. O agroextrativismo de produtos da flora e fauna, como frutas, sementes, fibras, cascas, mel, entre outros, fortalece a economia das comunidades, contribui para sua segurança alimentar e são uma expressão cultural. Estas formas de uso da paisagem permitem a manutenção dos ciclos da água, dos fluxos genéticos da biodiversidade e dos estoques de carbono na vegetação e no solo, ou seja, prestam relevantes serviços ecossistêmicos para a sociedade.

Sociobiodiversidade O uso sustentável da paisagem do Cerrado baseado em conhecimentos, práticas e saberes desenvolvidos pela interação com o bioma ao longo de gerações é uma característica comum aos Povos do Cerrado; ao mesmo tempo, estes são muitos, com culturas e tradições diversas: são Geraizeiros, Vazanteiros, Quebradeiras de Coco Babaçu, Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto, Apanhadoras de Flores Sempre Vivas, Quilombolas, Povos Indígenas, agricultores familiares e agroextrativistas que se unem em organizações comunitárias, movimentos sociais populares e redes para protagonizarem a defesa de seus direitos ao território, ao bem viver e à conservação do bioma. Sociobiodiversidade A paisagem dos territórios habitados por estas comunidades destaca-se das áreas de entorno ocupadas por grandes monoculturas de grãos, pastagens, mineração e monocultivos de árvores por fazerem roçados diversificados e sistemas agroflorestais; por manterem a vegetação nativa e conservarem nascentes e cursos d´água. Sociobiodiversidade Mesmo sofrendo fortes pressões, como desmatamento ilegal, grilagem de terras e fragilidades fundiárias, o estado de conservação desses territórios, em alguns casos, faz deles corredores e trampolins de conexão com áreas protegidas como Unidades de Conservação, Terras Indígenas e mesmo com áreas privadas protegidas por lei, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente. Sociobiodiversidade É importante promover as cadeias dos produtos da sociobiodiversidade e fortalecer as economias das comunidades, por exemplo, por meio de políticas públicas de fomento e pelo consumo responsável e consciente, de forma que possam continuar suas práticas tradicionais, práticas que conservam o Cerrado pelo uso sustentável da paisagem. Sociobiodiversidade Sociobiodiversidade

Intro Você e o Cerrado É comum sentirmos um certo distanciamento de noticiários sobre o desmatamento, mudanças climáticas, conflitos rurais, exportação de commodities, biodiversidade, indígenas, áreas protegidas, entre outros temas relacionados ao Cerrado. Mas esses e outros tópicos são elos inerentes de cada um de nós com o Cerrado.
O consumo de bens produzidos em áreas recém desmatadas é uma forma de estimular o desmatamento. A sensibilização sobre a importância das áreas protegidas é fundamental para a manutenção da biodiversidade, bem como o apoio a iniciativas que busquem produções mais equilibradas ajudará a mantermos o Cerrado de pé. São muitas as formas de apoiar a conservação do Cerrado.

Slide A proteção do Cerrado em áreas privadas depende do engajamento de diferentes pessoas e instituições, sem as quais não seria possível realizar esse trabalho. O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) é o órgão responsável por chancelar reservas em nível federal; os proprietários são parte central nesse processo - é pela iniciativa e sensibilidade deles que esse trabalho começa; os parceiros locais que, com seu conhecimento da região, nos permitem colocar os pés no chão e interagir com a realidade local; as instituições financiadoras e apoiadoras, que irmanam conosco apoiando esses trabalhos; e os técnicos que se embream no cerrado e viabilizam toda essa saga. A todos esses somos gratos, e fazemos para que seus esforços e resultados sejam cada vez mais ampliados e que, com isso, muito mais cerrado seja protegido.

Nós do Instituto Cerrados entendemos que valorizar o Cerrado e aqueles que nele vivem é a forma mais eficiente de conservá-lo. Por isso produzimos esse conteúdo, como forma de divulgar o importante papel que cada um tem na conservação do bioma. Esperamos que você possa fazer parte desse elo que protege o Cerrado.

Deixamos aqui nosso agradecimento a todas as pessoas e instituições parceiras que apoiaram o Elos do Cerrado. Nós do Instituto Cerrados entendemos que valorizar o Cerrado e aqueles que nele vivem é a forma mais eficiente de conservá-lo. Por isso produzimos esse conteúdo, como forma de divulgar o importante papel que cada um tem na conservação do bioma. Esperamos que você possa fazer parte desse elo que protege o Cerrado.